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terça-feira, 26 de março de 2013

DEMONIZAR PARA CONVERTER: O DISCURSO CARISMÁTICO FRENTE ÀS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

REVISTA EDUCARE ISEIB -MONTES CLAROS - MG V. 2 2006
1
DEMONIZAR PARA CONVERTER: O DISCURSO CARISMÁTICO
FRENTE ÀS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS
Regina Célia Lima Caleiro1
Frederico Alves Mota2
Resumo: O presente artigo visa demonstrar que, por detrás de um posicionamento tido como inovador, a Renovação
Carismática Católica vem fazer uso de estratégias a muito, utilizadas pelo catolicismo, de identificar outros grupos
religiosos como representantes de um mal que deve ser combatido, cabendo ao catolicismo apresentar a salvação para
este suposto ataque das forças malignas. Entretanto esta postura pode reestimular posturas preconceituosas contra os
grupos identificados como a representação deste mal, como é o caso das religiões afro-brasileiras que vem sofrendo um
constante ataque por parte dos carismáticos.
Palavras-chave: Renovação Carismática Católica, Religiões afro-brasileiras, demonização, preconceito.
Introdução
Iniciaremos este artigo com uma oração que não raramente abre as reuniões
carismáticas. Essa oração intitulada de Oração de Renuncia é, a nosso ver, um resumo
claro de qual deve ser o posicionamento dos cristãos frente à convivência com a
diversidade religiosa que coexiste em nosso país. Essa oração enfatiza claramente qual é
a postura da Renovação Carismática Católica no que diz respeito às tradições religiosas
afro-brasileiras, portanto:
“[...] Eu renuncio a todo espírito de magia negra e bruxaria; de
espiritismo e Umbanda; de macumba e sarava; de xangô e mesa
branca, de candomblé e congá; de curandeiro e benzedeira [...]
Eu renuncio a todos os espíritos guias, que invocaram sobre
mim; a toda herança de falsas religiões que trago dos meus
antepassados! [...] Eu renuncio a todo espírito de exu e ogum; de
oxóssi e iemanjá; ao espírito do caboclo e do preto-velho; ao
espírito de tranca rua e São Jorge; ao espírito de São Cosme e
Damião, ao espírito de São Cipriano e a todos os outros [...] Eu
renuncio a todos os remédios, passes espíritas, cirurgias e
tratamentos feitos em centros espíritas; a todos os trabalhos e
despachos, maldições ou pragas, maus olhados que lançaram
sobre mim ou minha família.”3
1 Professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Montes Claros/UNIMONTES.
Mestre em História pela UNESP e Doutora em História pela UFMG.
2 Acadêmico do 7° período de História da Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES
3 Oração proferida nos cultos carismáticos intitulada: Oração de Renuncia.
REVISTA EDUCARE ISEIB -MONTES CLAROS - MG V. 2 2006
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A oração citada, que geralmente é proferida ao início ou ao término dos assim
chamados “grupos de oração,” tem como objetivo afastar do cristão tudo o que não está
ligado às tradições judaico-cristãs, demonstrando assim, a necessidade de uma negação
por completo de tudo aquilo que possa fazer referência às tradições religiosas afrobrasileiras.
É interessante notarmos que o nome de todas as divindades do panteão mítico
afro-brasileiro foi escrito com letra minúscula, excetuando-se aqueles que foram
sincretizados com santos católicos. Essa atitude que, a uma primeira vista pode parecer
banal, deixa transparecer um não reconhecimento destas divindades enquanto tal e uma
forma depreciativa de fazer referência a essas entidades.
Nosso objetivo ao iniciarmos este artigo é nos aproximarmos do sentido de
resgatar o imaginário demoníaco e qual o lugar resguardado na realidade para este
sistema de representações. Para tal, estamos partindo do pressuposto de que, para se
aproximar da estrutura imaginária de uma determinada sociedade, faz-se necessário levar
em conta a realidade social e o sistema de representações que gira em torno da mesma.
(PLATAGEAN 1978:301) Para estabelecermos uma análise mais objetiva sobre tal
questão, para este artigo estamos restringindo o conceito de imaginário ao que é
trabalhado por Sandra Jatahy Pesavento que o trata como: “um sistema de idéias e
imagens de representação coletiva que os homens, em todas as épocas construíram para
si, dando sentido ao mundo.” (PESAVENTO 2003:43) Entretanto se faz necessário
deixar claro que vamos nos ater apenas às representações construídas pelos meios
religiosos junto à sociedade, buscando estabelecer um sentido a este universo – que se faz
crer - habitado pelo sobrenatural. É necessário enfatizarmos que, estamos considerando
representação como: “uma tradução mental de uma realidade exterior percebida e que se
liga ao processo de abstração e que, se manifesta por imagens e discursos que pretendem
dar uma definição da realidade.” (PESAVENTO 1995:15 )
Segundo os especialistas na área, como Roger Chartier e Sandra Jatahay
Pesavento, o imaginário social é uma espécie de estrutura que se torna parte, quando não
a reguladora da vida coletiva, estabelecendo assim, condutas e determinando perfis mais
em acordo ao sistema social. (PESAVENTO 1995:23 ) É partindo dessa perspectiva que
entendemos a relação entre a RCC 1 e seus fiéis.
1 Optamos por utilizar essa abreviatura para definir Renovação Carismática Católica.
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3
A intensa competição entre diversos grupos religiosos, que cada dia têm se
apresentado os mais variados, mostra a necessidade de se adotar atitudes cada vez mais
concretas para manter a competitividade, em busca da manutenção de uma posição
privilegiada dentro do mercado religioso, portanto:
O mundo social é também representação e vontade, e todo
discurso contém, em si, estratégias de interesses determinados. A
autoridade de um discurso e sua eficácia em termos de
dominação simbólica vêm de fora: a palavra concentra o capital
simbólico acumulado pelo grupo que o enuncia e pretende agir
sobre o real, agindo sobre a representação deste real.
(PESAVENTO 1995:18 )
Se o papel do historiador está ligado à busca do não explícito, daquilo que ficou
oculto nas entrelinhas e dar sentido às intenções ocultas, o estudo do imaginário tem se
mostrado mais uma boa ferramenta na busca por uma melhor compreensão acerca das
estruturas sociais. Roger Chartier diz que as representações seriam uma forma utilizada
pelos indivíduos e pelos grupos na intenção de dar sentido ao mundo que é o
deles.(CHARTIER 1991)
Por isso, é necessário ao historiador ter perspicácia ao analisar uma realidade, pois
“as representações de uma sociedade e de uma época formam um sistema, ele próprio
articulado com todos os outros, desde as classes sociais e a religião, até aos modos de
comunicação,” (PLATAGEAN 1978:310) cabendo, portanto, ao historiador ligar as
pontas desta teia complexa que é construída através da relação - no caso específico deste
artigo – entre os grupos religiosos e a sociedade.
Durante todo este trabalho acreditamos ter nos aproximado um pouco do sentido
de reforçar, no imaginário popular a existência do demônio e como e porque estabelecer
uma relação entre essa entidade mitológica e as religiões de origem africana, com isso,
demonstraremos as utilidades práticas de se retomar esse discurso em pleno século XXI.
Estaremos, portanto, apontando como a RCC vem, através de um discurso intolerante,
reconstruir e reafirmar a existência de uma entidade que seria associada a uma
personificação do mal: o Demônio. Usando deste artifício, a RCC objetiva, através de
uma disputa mercadológica, eliminar a concorrência das religiões afro-brasileiras,
alegando que estas são atualmente um dos principais representantes das entidades
malignas e que, portanto, devem ser imediatamente combatidos.
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Por muito tempo, os estudos acerca dos valores subjetivos que constróem uma
sociedade foram relegados a segundo plano pela história, em parte, pelos avanços
promovidos pela ciência e pela valorização do pensamento racional.
Sandra Jatahy Pesavento diz que, a partir do desenvolvimento do pensamento
racional cartesiano, há um rompimento “com tudo aquilo que representava opiniões, prénoções
e formas de conhecimentos transmitidos pela tradição e pelos viesses ideológicos”
(PESAVENTO 1995:11), entretanto, o surgimento nos anos 1980 da “Nova História
Cultural” nos permite expandir as reflexões históricas a outros campos, incluindo áreas
que trabalham com a subjetividade dos grupos e que são capazes de nortear valores e
crenças, para isso, “o imaginário enquanto representação revela um sentido ou envolve
uma significação para além do aparente”. (PESAVENTO 1995: 16)
E é partindo dessa perspectiva que a Igreja Católica, na tentativa de resgatar seus
fiéis que se afastaram de sua influência e, porque não, conquistar os indecisos, vem –
representada pela RCC – travando uma nova “Guerra Santa”, só que agora, os infiéis a
serem combatidos seriam as religiões afro-brasileiras. Segundo Brenda Carranza, nem
mesmo o fato de as religiões afro-brasileiras já terem sido incontestavelmente
reconhecidas socialmente como tal impede a RCC de buscar a depreciação e
descaracterização destes grupos, enquanto religiões. (CARRANZA 2000 )
Em meio à revolução tecnológica, ao desenvolvimento da engenharia genética e
todas as inovações proporcionadas pela modernidade, é no mínimo curioso o fato de a
RCC tentar reconstruir e trazer à tona a imagem de uma entidade que acompanha o
cristianismo desde os primórdios. Mais curioso ainda é tentar implantar tal idéia em outro
grupo religioso. A nosso ver, isso deixa transparecer a necessidade de criar adversários no
campo religioso, justificando, assim, a posição da Igreja Católica como a salvadora e a
única capaz de conter o avanço do mal.
A história nos mostra que o Demônio sempre cumpriu uma função social no
decorrer da história, e que a Igreja Católica sempre soube utilizar muito bem sua imagem
em benefício próprio, em especial, nos momentos onde sua hegemonia é ameaçada
“assim, quando o cristianismo é estudado, observa-se como emerge uma guerra contra o
diabo mostrando que é na oposição Deus Diabo que o cristianismo avançou.”
(CARRANZA 2000:177 )
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A RCC tem demonstrado uma preocupação constante e excessiva com essa
entidade tida como a representação do mal. É possível percebermos isso ao assistirmos
aos programas, palestras e produções editoriais que são veiculadas pela Renovação.
Alguns títulos são bastante sugestivos como: Cura do Mal e Libertação do Maligno,
Libertando os Cativos, Liberto das Falsas Doutrinas, O Diabo e o Exorcismo etc. Em
grande parte de suas produções, o Demônio é comumente utilizado para explicar todas as
adversidades da sociedade brasileira, sendo este o responsável pela pobreza, pelas crises
econômicas, pelos altos índices de criminalidade, pelas grandes epidemias, enfim, o
imaginário demoníaco construído pela RCC transforma a sociedade brasileira num
verdadeiro campo de batalha, onde os seres humanos não passam de fantoches nas mãos
de seres sobrenaturais, tendo, portanto seu papel, enquanto indivíduos históricos
totalmente suprimidos por este embate maniqueísta. Em um de seus livros intitulado O
Meu Lugar é o Céu o Pe. José Augusto de forma sutil expõe esta idéia ao dizer que:
Dentro da realidade em que vivemos, as trevas lançaram seu
furor contra nós. A intenção é que as pessoas sejam cada vez
mais ignorantes, se interessem por revistas, jornais, leiam
panfletos, livros que não colaboram para o crescimento... e
continuem a desconhecer a bíblia.2
Essa excessiva preocupação com essa entidade maligna tem se mostrado uma
excelente “matéria prima para realizar as curas de libertação que atraem grandes
contingentes populares nos eventos massivos,” (CARRANZA 2000:184) contribuindo
assim para o arrebanhamento cada vez maior de fiéis para engrossar suas fileiras.
Ao iniciarmos a nossa análise acerca das publicações da RCC, notamos que o
Demônio acaba sendo o foco das pregações carismáticas, em que se busca através de
explicações simplistas, produzir uma leitura acerca da realidade sem levar em conta as
suas peculiaridades e, sendo todos os problemas sociais explicados pela ação do
sobrenatural. Sem embargo, este pode ser um caminho um tanto perigoso, pois retirar das
pessoas a perspectiva dos conflitos sociais é como retirar delas a sensibilidade de se
revoltar diante das injustiças de uma sociedade em que a desigualdade social e a
concentração de renda tornam-se cada vez mais gritantes.
2 AUGUSTO, José. O Meu Lugar é o Céu. 2003 p. 37
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Dessa maneira, o reencantamento promovido pela RCC tem uma série de
aplicações práticas na vida cotidiana de seus fiéis, já que vivemos em uma sociedade em
que predomina um imaginário de que política e religião não devem jamais serem
discutidos, mesmo que seja a política que determine o valor do arroz e do feijão que serão
consumidos, e a religião seja a principal responsável por uma série de valores morais que
trazemos conosco desde a nossa gênese.
Alegando a existência desse ser maléfico, é que a RCC reestrutura o universo
cotidiano de seus adeptos, justificando seu alcoolismo, sua depressão, sua falta de
emprego, a violência do marido, enfim, retirando de seus membros a responsabilidade de
seus próprios atos, fornece explicações coerentes acerca das dificuldades diárias e dos
problemas sociais como um todo. (CARRANZA 2000) Isso vem sendo comumente
divulgado por seus pregadores ao fazer colocações do tipo : “entenda esta realidade: seu
inimigo não é seu marido, não é seu pai; o seu inimigo é o demônio. Ele é quem aponta
os erros e os defeitos do seu marido e da sua família para tentar cultivar ódio e solidão em
seu lar”3.
Essa visão acerca da sociedade tem a função de consolidar a desconfiança e o
sentimento de aversão àqueles grupos identificados como os representantes do mal. Essas
construções mitológicas tem, no imaginário popular, a função de legitimar as ações dos
grupos sociais dominantes, estabelecendo, assim, uma ausência de coerência acerca do
tratamento pejorativo que é destinado àqueles grupos que são taxados como a
personificação do que deve ser renegado e combatido pois como é afirmado pelos
carismáticos:
Se você entendeu a seriedade e a importância de viver com Jesus,
desfaça-se dos objetos que talvez você tenha adquirido em
terreiros, com a “benção” dos pais e mães-de-santo. Não os dê
para ninguém, destrua-os, jogue-os fora! O demônio não pode
imperar em nossos lares, não pode ter brecha em nossa vida4
Maria Luiza Tucci Carneiro explana que, “ nos momentos de crise, os mitos
cumprem uma função compensatória e pacificadora. Corrigem as imperfeições do mundo
real e apontam o bode expiatório identificado com um grupo acusado de ter
características indesejáveis.” (CARNEIRO 1998:63)
3 AUGUSTO, José. O Meu Lugar é o Céu. 2003 p. 21
4 AUGUSTO, José. O Meu Lugar é o Céu. 2003 p. 90
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Na busca por dar sentido a um mundo onde, nem sempre o que prevalece é a
coerência, e onde, na maior parte das vezes, a falta de uma trajetória linear - que na maior
parte do tempo parece estar nos conduzindo ao caos - faz com que muitas pessoas tomem
como verídicas explicações que, em muitos casos, apenas levam à ignorância acerca da
diversidade e, não raramente, leva a posicionamentos discriminatórios. A história está
cheia desses exemplos. Desde a era medieval, a Europa tem o hábito de demonizar as
manifestações culturais das classes consideradas como subalternas, geralmente pela
incompreensão das mesmas, Pesavento mostra que a criação de estereótipos geralmente
vem acompanhada de fatos reais que são manipulados no imaginário coletivo:
As idéias imagens precisam ter um mínimo de verossimilhança
com o mundo vivido, para que tenham aceitação social, para que
sejam críveis. Entende-se que mesmo o fantástico e o
extraordinário manejam como dados reais, transformados e
adaptados em combinações várias. A própria potência criadora
do imaginário não é concebida num vazio de idéias, coisas ou
sansações. (PESAVENTO 1995:22)
Desde a fundação do Brasil enquanto colônia de Portugal, estamos acostumados a
importar ideologias trazidas de fora, sem levar em conta as peculiaridades de nossa
formação cultural híbrida. Apesar das particularidades que caracterizam a RCC brasileira,
ela é o resultado de um empreendimento de origens e influência norte - americana
marcante.5 Não estamos tentando afirmar que a demonização das culturas afro-brasileiras
é uma imposição e uma determinação da invasão cultural norte americana, mas sim, que a
importação de idéias que fazem parte de um contexto cultural adverso ao nosso podem
gerar uma série de preconceitos culturais que não condizem com a nossa realidade.
A idéia de uma religiosidade desprovida de uma responsabilidade política, em um
país com índices sócio-econômicos alarmantes, confirma o interesse na manutenção de
uma sociedade apática e mantenedora de privilégios, como mais uma vez demonstra o Pe.
José Augusto quando diz que: “Tem-se o hábito de ler jornais, romances, pornografia;
informar-se sobre a atualidade, consultar a Internet, mas a palavra de Deus está
5 Para maiores detalhes sobre o surgimento da Renovação Carismática Católica Brasileira ver:
CARRANZA, Brenda. Renovação Carismática Católica: Origens, mudanças e tendências.
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esquecida; e sem conhecimento, perecemos, ficamos vulneráveis ao maligno.”6
(AUGUSTO 2003:39).
A exploração do imaginário demoníaco tem se mostrado bastante eficiente, uma
vez que, por traz de seu caráter apocalíptico, existe uma conseqüência social: a
banalização das relações políticas. Há um distanciamento do indivíduo do seu papel
enquanto agente transformador da realidade e uma incapacidade de se indignar diante das
injustiças cotidianas. A utilização da figura do Demônio serve como uma alternativa
simplista e desprovida de qualquer análise consistente para conceber uma realidade
complexa e recheada de particularidades ou, como nos mostra Serge Gruzinsky ao dizer
que “os enfoques dualistas e maniqueístas seduzem pela simplicidade e, quando se
revestem da retórica da alteridade, confortam as consciências e satisfazem nossa sede de
pureza, inocência e arcaísmo.” (GRUZINSKY 2001:17)
Todavia, o lugar ocupado pela religião Católica na nossa sociedade
indiscutivelmente é provida de privilégios. Sua autoridade para determinar crenças e
invalidar outras é uma realidade. Portanto, ao associar as religiões afro-brasileiras a
práticas ligadas ao demônio é uma maneira nítida de dizer ao cristão o que não lhe é
permitido, “mesmo as representações coletivas mais elevadas só tem existência, só são
verdadeiramente tais, na medida em que comandam atos.” (CHARTIER 1991:183)
Patrícia Birman associa essa questão a uma disputa política que tem implicações
práticas, já que, o fato de as religiões de origem afro-brasileira permitirem aos seus fiéis
um contato direto com seus deuses, através da possessão, esta relação vem ameaçar de
forma direta o poder exercido pelo clero, que é o encarregado de intermediar a relação do
fiel com “as forças sagradas.” (BIRMAN 1985)
Apesar de alguns autores defenderem que, na atualidade, a relação entre Católicos
e grupos afro-brasileiros é amistosa, não foi o que constatamos ao analisar o material
produzido pela RCC. A descaracterização da cultura do outro como uma forma de autoafirmação,
como a única religião legítima, é uma das práticas mais comuns do
Cristianismo como fica claro na passagem seguinte que diz que: “Ninguém viu o Papa
João Paulo II fazendo contato com o demônio para implantar a paz no mundo. Ele
6 AUGUSTO, José. O Meu Lugar é o Céu. 2003 p.39.
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também não consultou um pai – de – santo, nem matou animais para sacrifício.”7 Essa
prática vem sendo muito bem utilizada pela RCC.
Luiz Mott mostra que a Igreja na colônia “exortava que as pessoas evitassem os
negros que tinham trato com o demônio e que procurassem os exorcismos da Igreja por
ser remédio mais seguro e eficaz.” (MOTT 1997:196) Sendo assim, a oferta sobrenatural
católica supostamente se apresenta como muito mais eficiente que a oferta afro-brasileira.
Olhando por esse mesmo prisma, Chartier afirma que “a partilha dos mesmos bens
culturais pelos diferentes grupos que compõem uma sociedade suscita a busca de novas
distinções capazes de marcar os desvios mantidos.” (CHARTIER 1991:187)
O fato de serem as camadas populares as principais utilizadoras dos serviços
mágicos dos cultos afro-brasileiros demonstra que desconstruir a eficiência dessas
práticas e associá-las ao demônio é uma forma de trazer essas classes para dentro da
RCC, já que, o público que inicialmente a compõe é formado pela classe média.
Novamente, Carranza diz que “é esse imaginário que permite à RCC sua expansão nas
camadas populares do catolicismo e que atrai multidões com a promessa de libertar os
fiéis do mundo possuído pelo senhor das trevas, o demônio.” (CARRANZA 2000:228)
As orações de cura e libertação são um dos principais motivos que levam tantas
pessoas a buscarem os grupos carismáticos. Muitas vezes, pessoas de condições
econômicas pouco favorecidas vêem neste serviço mágico uma das poucas alternativas
que lhes resta diante de uma realidade social pouco animadora.
A RCC faz uso do argumento da cura interior de forma exemplar, já que, com a
promessa de curar doenças de todos os tipos, sem descartar um acompanhamento da
medicina tradicional, leva as pessoas a reinterpretarem suas vidas. A fé que é depositada
em um ser que se mostra maior e mais poderoso do que qualquer outro elemento do
mundo real, faz com que haja uma suposta racionalização do mundo sobrenatural,
portanto, “a RCC ao pregar o milagre cotidiano e não procurar uma evidência empírica
objetiva que se ajuste aos cânones científicos e hierárquicos, pode tornar essas
experiências irreais e mentirosas, beirando quase que o charlatanismo.” (CARRANZA
2000:104)
7 AUGUSTO, José. O Meu Lugar é o Céu. 2003 p. 43
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A falta de preocupação com o critério científico das curas leva a crer que a própria
instituição legitima o excessivo apego às curas como uma manifestação da graça divina.
Esta seria, portanto, uma das várias maneiras de resgatar no fiel a sua esperança e sua
empolgação diante da instituição.
O ritual de exorcismo, que tem sido alvo de uma propaganda favorável por
parte dos Carismáticos, seria mais uma forma de demonstrar ao fiel o poder e o domínio
da instituição diante das forças sagradas. O exorcismo passa a ser então um medidor de
forças, já que, quando um corpo está habitado por uma força sobrenatural identificada
como o maligno, cabe a um representante da instituição, no caso, um padre exorcista,
designado pelo próprio bispo, expulsar essa força indesejada. Com isso mostra-se a
eficiência do serviço mágico que é prestado, ao mesmo tempo em que se legitima e
reforça o papel do clero como o intermediário entre Deus e os fiéis, como fica claro no
seguinte relato de uma fiel ao dar um testemunho favorável a estas práticas dizendo o
seguinte:
Padre, em minha casa existiam muitos altares dedicados a
Iemanjá, Orixás... ninguém podia tocar em nada. Na realidade,
minha vida estava um “inferno”, e ao participar de uma missa
que o senhor celebrou, escutei-o falando sobre isso. Minha
primeira atitude ao chegar em casa foi destruir e acabar com
tudo. Depois, busquei um sacerdote, me confessei e agora a
minha vida mudou totalmente. Eu era escrava de satanás e não
sabia.8
Sendo assim, implantar o imaginário demoníaco nas religiões afro-brasileiras é
apenas mais uma estratégia carismática de resgatar a confiança dos fiéis nos seus
serviços.
No livro: Exorcismo: A verdade dita pelos padres exorcistas em nome de Maria
Santíssima e São Miguel Arcanjo, são relatadas algumas sessões de exorcismo em que
são revelados revelado aos padres que participaram do ritual várias normas de conduta
que deveriam ser seguidas pelos fiéis reafirmando, a autoridade do Papa e da Igreja
Católica. O mais curioso é que essas revelações são feitas pelos próprios demônios que
ocupam o corpo da fiel, sendo revelado inclusive um plano tramado pelas forças
diabólicas para destruir o Catolicismo, denominado: Masterplam.
8 AUGUSTO, José. O Meu Lugar é o Céu. 2003 p. 54
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Segundo o autor, “o Brasil carrega o exorcismo no próprio nome. Nossa história
está marcada pela oração. São 500 anos de oração e de Exorcismo, graças à piedade de
nossos antepassados portugueses.” (SCHOMA, 2003:14) Todo o livro é norteado pela
afirmação da existência do Demônio como o causador dos males da humanidade, como
podermos verificar em uma de suas passagens, expondo que :
Que satanás e o inferno existem, não podemos negar de ânimo
leve, tanto mais nestes últimos tempos, isso é mais que evidente.
O demônio faz então o aproveitamento e lançou tudo no caos,
com as amplas liberdades sexuais e o desmoronamento moral,
nos ambientes perversos e o apoio da comunicação social,
nomeadamente da TV, o demônio julga-se já senhor do universo
[...] A existência do inferno até já foi provada cientificamente.9
Curioso, é o fato de o autor se esquecer de mencionar que a “piedade de nossos
antepassados portugueses” foi regada com uma boa dose de ganância, situação em que
uma imensa população de indígenas e africanos foi escravizada e explorada em benefício
de nossos “piedosos antepassados.” Outra questão curiosa, está no fato do autor não
mencionar as fontes que comprovam a existência do inferno e, muito menos, qual o ramo
da ciência foi capaz de desvendar tamanho enigma.
Para Sandra Jatahy Pesavento, “as coisas ditas, pensadas e expressas tem um
outro sentido, além daquele manifesto. O imaginário enuncia, se reporta e evoca outra
coisa não explícita e não presente.” (PESAVENTO 1995:15) Portanto, o que nos foi
possível observar até este momento é que há uma tentativa, por parte da RCC, de se
moldar à sua realidade, buscando uma modernização nas formas de evangelização,
usando inclusive de um discurso supostamente científico para legitimar suas convicções.
Entretanto, ficou claro no decorrer de todo o trabalho que, mesmo usando de uma
roupagem supostamente nova, a RCC não deixou de utilizar de uma estratégia milenar do
catolicismo de ilegitimar as práticas de grupos concorrentes, além de povoar a realidade
de seres sobrenaturais, visando com isso, garantir seu rebanho de fiéis no mercado
religioso. Entretanto, ao retomar esta manipulação da realidade, a RCC reestimula
9 SCHOMA, Eugênio. A verdade dita pelos padres exorcistas em nome de Maria Santíssima e São Miguel
Arcanjo. 2003 p. 15
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fundamentalismos e preconceitos que, como qualquer tentativa de homogeneização,
podem ter conseqüências perigosas.
O historiador, Jean Claude Schimitt em um artigo intitulado: A História dos
Marginais, vem dizer que:
A época contemporânea terá seus próprios rejeitos, mas nem
todos serão novos: talvez a característica mais importante da
história da marginalidade e da exclusão, seja também ser uma
arqueologia do nosso saber, dos nossos valores e das recusas de
nossa própria sociedade. (SCHIMITT 1998:228).
A postura de construir uma realidade em que os indivíduos participam apenas
como uma espécie de peças em um jogo de xadrez, ao nosso ver, pode ter conseqüências
no mínimo perigosas. Além da descaracterização das práticas alheias, essa atitude ainda
reforça uma espécie de letargia de seus fiéis diante de sua realidade, passando com isso, a
um estado de quase imobilismo frente às adversidades cotidianas, além de reavivar
desavenças com outros grupos que fizeram uma opção divergente da que é tida como a
correta e única fonte da verdade.
Para os carismáticos este caminho só pode ser encontrado através da vivência do
cristianismo e de seus dogmas. Diante de tal fato, consideramos que o posicionamento do
grupo carismático deve ser analisado com cuidado, pois não podemos novamente permitir
que disputas por poder venham a sacrificar a herança deixada por milhões de braços
africanos que construíram esta nação sujeitos às mais variadas formas de violência.
Referências Bibliográficas
 AUGUSTO, José. O Meu Lugar é o Céu. São Paulo: Canção Nova, 2003.
 BIRMAN, Patrícia. O que é Umbanda. 2ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.
(Coleção Primeiros Passos: V.97)
 CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. O Racismo na História do Brasil: Mito e
Realidade. 7ed. São Paulo: Ática, 1998. (Coleção história em Movimento)
 CARRANZA, Brenda. Renovação Carismática Católica: Origens, mudanças e
tendências. 2ed. Aparecida: Editora Santuário, 2000.
 CHARTIER, Roger. O Mundo como Representação. Revista de Estudos
Avançados. V. 11 n. 05, pg. 173-191. 1991.
 GINSBURG, Carlo. Os Andarilhos do Bem: Feitiçarias e cultos agrários nos
séculos XVI e XVII. São Paulo: Cia das Letras, 1988.
REVISTA EDUCARE ISEIB -MONTES CLAROS - MG V. 2 2006
13
 GRUZYNSKI, Serge. O Pensamento Mestiço. Trad. D’AGUIAR, Rosa Freyre -
São Paulo: Cia das Letras, 2001
 JUKERVICS, V.I. A Renovação Carismática Católica: Reencantamento do
Mundo: História: Questões & Debates, Curitiba, n 40.
 LE GOFF, Jacques. A História Nova. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
 MOTT, Luiz. Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu. IN:
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