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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Tia Marcelina, um mito que ainda aguça o imaginário alagoano Hoje considerada o maior símbolo da resistência religiosa em Alagoas, mãe de santo ainda tem vida e morte repleta de mistérios e fatos obscuros


Tia Marcelina, um mito que ainda aguça o imaginário alagoano

Hoje considerada o maior símbolo da resistência religiosa em Alagoas, mãe de santo ainda tem vida e morte repleta de mistérios e fatos obscuros
por Larissa Bastos e Wellington Santos
Fotos: Raul Plácido
Tia Marcelina, um mito que ainda aguça o imaginário alagoano
Homenagem à Tia Marcelina abriu cortejo do Quebra de Xangô realizado em Maceió
“Bate moleque, quebra braço, quebra perna, tira sangue, mas não tira saber”. Fortes, as palavras ainda ecoam pelos centros de candomblé de Alagoas e trazem à tona, mesmo cem anos depois, o terror vivido na noite de 1º de fevereiro de 1912. Foi assim, segundo a lenda, que a mais famosa personagem do Quebra de Xangô, Tia Marcelina, teria resistido à perseguição da polícia e lutado até o fim na tentativa de preservar suas crenças.
A propagação do episódio – contado pelo professor Morôni Laurindo do Nascimento no trabalho ‘As representações de Tia Marcelina: uma luta entre classificações’ – retrata a importância alcançada pela mãe de santo. Sobrevivendo ao tempo, ela é hoje lembrada pelos adeptos das religiões de matriz africana como a mais importante figura de resistência e sua lenda continua sendo repassada de geração em geração nos terreiros do Estado.
Apesar do status de mito, a vida da sacerdotisa continua mergulhada em mistérios. E, para tentar entender os eventos obscuros que a cercam, é necessário conhecer, antes de tudo, quem foi Tia Marcelina. Longe do imaginário popular durante quatro décadas, foi somente em 1952 que as histórias sobre a religiosa começaram a ser conhecidas e difundidas tanto dentro quanto fora dos candomblés.
Os primeiros escritos são de Abelardo Duarte e Oséas Rosas e, segundo eles, a yalorixá seria uma importante descendente da família real da África e responsável ainda pela fundação da primeira casa de toque alagoana, num pequeno sítio - hoje, o local se transformou em um imóvel, situado atrás do Espaço Cultural da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), na Praça Sinimbu. O terreiro logo faria sucesso, tendo sido frequentado, inclusive, pela elite política do início do século XX.
“Todas as classes queriam conhecer a Tia Marcelina, queriam conhecer a religião, queriam conhecer o candomblé. Uns iam porque frequentavam como filhos de santo, outros iam como curiosos. Olhar, conhecer o que é o terreiro, o que é o candomblé, o que era a seita. O meu avô falava que o ex-governador Euclides Malta era filho de santo da Tia Marcelina e o Orixá dele era Obá, filho de Obá”, conta Pai Maciel no documentário 1912: O Quebra de Xangô.
Não demoraria para que a aura de poder criada ao redor da religiosa fosse cada vez mais reforçada. “Dizem que tem um Exu ali debaixo daquelas escadarias lindas do palácio do Governo. Se existe um exu plantado no palácio do Governo, só quem teve a ousadia de botar foi Tia Marcelina, que era mãe de santo de Euclides. Até hoje ninguém sabe se ele foi filho de santo dela ou só um cliente”, diz a filha de santo Rosa Mossoró, também ouvida no filme.
Para os diários da época, no entanto, a imagem era outra: a da bruxa responsável por todas as mazelas e pelas piores feitiçarias do Estado. “Os trabalhos já haviam principiado e a negra ‘mãe de santo’, modulando sorrisos de megera, olhares esgazeados de víbora saciada, correu com a mão o reposteiro de uma saleta contígua e lá ficou o ‘Ogum-taió’ da Praça dos Martírios”, descreve o Jornal de Alagoas.
Símbolo criado
Seja como bruxa ou deusa, as histórias de Tia Marcelina podem não ser tão verdadeiras quanto parecem – e, apesar da reputação, a figura mais importante do Quebra pode não ter nem existido. Pelo menos é o que desconfia o professor e historiador Luiz Sávio de Almeida, defendendo que a recuperação da imagem da mãe de santo é um processo de afirmação dos cultos em parceria com setores intelectuais da classe média.
Segundo o estudioso, foi apenas na década de 60, com a I Semana dos Cultos Afrobrasileiros, que a personagem começou a tomar vida e que a difusão do mito teve início. Foi durante este movimento – uma invasão consentida ao Teatro Deodoro realizada como forma de protesto contra a repressão – que ele ouviu falar pela primeira vez na sacerdotisa. Eram poucos também os adeptos do candomblé que a conheciam.
Para Sávio de Almeida, Tia Marcelina pode ter sido moldada para se tornar um símbolo. “Ninguém tinha referências nem sabia quem ela era. Só sabiam que o terreiro dela ficava perto da Praça Sinimbu. Menos de 50 anos depois do Quebra, fiz uma busca tentando encontrar quem a tivesse conhecido. Passei por vários centros, mas não achei ninguém que tivesse convivido com ela ou que conhecesse o terreiro. A lenda, porém, ficou na cabeça do povo”, conta.
E nem mesmo a imagem da religiosa é conhecida ao certo – o quadro pintado por Zumba pode não representar a realidade. “Ninguém sabia como ela era, mas chegaram dizendo que o Zumba havia feito uma pintura. Não discuti. Se eles acreditavam que ela era assim, então era. Comprei o quadro e pendurei na minha casa. Aliás, dizem que ela está sempre ao meu lado”, afirma Sávio, que é católico e diz ter um misto de crença e ceticismo quanto ao tema.
Ele acredita, porém, que, mesmo com todas as dúvidas sobre sua vida, ela teve, sim, papel importante para os religiosos alagoanos. “Acho que Tia Marcelina teve um papel preponderante, senão não teria tanta importância. O que se conta é que ela morreu dizendo que o policial poderia matar a ‘preta velha’, mas que ele morreria dias depois. O que ela representa é isso, o enfrentamento do povo, a coragem de lutar”, expõe o professor.
Dúvidas quanto à morte
Além da existência, a morte da sacerdotisa também é um dos pontos que aguçam o imaginário. “Eu ouvi contar que Tia Marcelina não teria morrido meses depois por causa da violência do quebra-quebra, mas sim que ela teria se suicidado, se jogado em uma cacimba”, afirma Mãe Miriam, uma das matriarcas da religião de matriz africana no Estado, numa versão não sustentada por qualquer estudioso.
Outra variante é de que ela teria sido espancada com golpes de sabre, ficando vários meses prostrada até morrer. Antes disso, contudo, ela ainda teria jogado uma maldição. “Maceió é um dia só”, teria dito, profetizando que a cidade não possuiria futuro e que nenhuma ação pública daria certo. Ainda segundo a lenda, o oficial que a espancou teria morrido com um lado do corpo completamente seco – coincidentemente o braço e a perna que a atingiram.
Segundo Pai Maciel, a história é ainda mais mítica. “Após a saída dele [Euclides Malta], ele recomendou que ela saísse de Alagoas [...] Então ela não tomou conselho. Jogou os búzios pra Ogum [...] No jogo, Ogum revelou a ela que fosse embora de Alagoas para o domínio do outro lado. Quer dizer, a Salvador, a Pernambuco ou outro Estado e ela não foi. Apegou-se a Maceió, ao dinheiro, ao ouro, a casa, ao terreiro, ao ilê, à filiação e não foi. Depois que o governador saiu, ela recebeu a repressão, o castigo e passou pela decepção”.
Desobediência ou não, a resistência de Tia Marcelina em fugir passou a ser interpretada, ao longo dos anos, como ato de coragem. Fazendo coro com Sávio de Almeida, o professor Morôni Laurindo também lembra a importância do ato para o povo negro. “A frase atribuída a ela parece ser uma espécie de resistência das religiões afro-brasileiras, que, mesmo diante da violência física, persistem em ser guardiãs de um ‘saber’ que o repressor, nas várias formas de ataque, não conseguiu tirar”, diz ele.
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