As maletas têm o acesso livre dos educadores para que sejam
utilizadas como mais um instrumento lúdico e educativo para as crianças e
os adolescentes.
*Por Rafaella Gil
Que tal uma mala recheada de debates, encontros, inclusão? Conheça então a
Maleta Futura,
projeto que reúne conteúdos temáticos para gerar discussões importantes
para a sociedade. Em sua 7ª edição, a Maleta aborda o tema
Juventudes e traz uma produção audiovisual inédita com uma série especial do Diz Aí.
O modo de fazer também foi diferente: diferentes grupos jovens,
público-alvo do projeto, participaram de encontros e levantaram os temas
e abordagens que gostariam de ver na Maleta – ao contrário de edições
anteriores, em que recebiam os conteúdos já para implementação.
“Dessa vez os consultores foram à campo escutar os jovens. Diferente
de qualquer outra maleta que a gente já tenha feito, fomos ao público
interessado para fazer uma imersão e pensar o material junto com eles.
Além dessa escuta, fizemos também exercícios de audiovisual do
Diz Aí
com eles e esse material entrou na maleta, é inédito e vai ser
exclusivo à Maleta e ao Futura Play. Fizemos uma reflexão, mas também
geramos um produto. E foi a primeira vez que isso foi feito.”, explica
Priscila Pereira, coordenadora do projeto.

Os encontros aconteceram em seis estados, com mais de 120 jovens de
diferentes contextos. Em cada lugar, uma temática. “Em cada praça tinha
uma metologia e abordagem diferente. Mas quando chegava na cidade,
claro, não falávamos só desse eixo. Juventude é transversal, é um
assunto que abrange um monte de coisa. A gente também não estava só na
escuta, nos envolvemos, mas sem cair no clichê e ajudar na questão da
linguagem, pra sair do mesmo. Eles reclamavam do que já estava sendo
colocado na mídia e o desafio foi pensar como saímos disso. O resultado
foi muito bacana.”, diz Marcelo Wasem, um dos três consultores da
Maleta.
A dinâmica funcionava em dois dias: no primeiro, um fórum com
dinâmicas e provocações para disparar a discussão temática, seguido de
oficinas técnicas sobre registro de imagens. No segundo, gravações,
produção, edição e, ufa, exibição!
E será que teve alguma história marcante nesse processo todo? A
Priscila conta: “Um objetivo que já alcançamos é criar um espaço de
escuta menos reativo e mais dialogado, especialmente em tempos de
polarização. Tivemos casos de jovens da igreja batista que, conversando
com jovens trans, se sentiram profundamente tocados e disseram que
estavam vendo um novo ponto de vista e que levariam aquela conversa aos
seus pares para mostrar essa visão mais humana, aproximada. Promover
esse espaço de diálogo olho no olho é um ganho de transformação das
próprias pessoas”.
Os materiais e o futuro da Maleta
Além dos conteúdos pensados e feitos especialmente para o projeto, é
realizada também uma curadoria de materiais de outras instituições, como
a Anistia Internacional e o Observatório das Favelas. Mais uma novidade
da Maleta Juventudes é a parceria com a DKT Brasil, fabricante de
preservativos, para chamar atenção para o crescimento da contaminação
pelo vírus HIV entre os jovens.
“Há uma nova epidemia de AIDS/HIV entre os jovens no Brasil. Os
números estão crescendo absurdamente e o uso de preservativo está caindo
vertiginosamente. Recheamos as maletas com camisinhas de todos os
sabores, tipos, texturas, para dizer que não tem desculpa pra não usar e
chamar atenção pra esses dados tão preocupantes. A UNAIDS também cedeu
um material legal nesse sentido”, conta Priscila.
Na confecção dos materiais, três consultores se dividiram entre os
temas para provocar as reflexões. Marcelo conta o processo: “Depois de
ouvir e passar por tantos lugares do Brasil, como escrever? Como dar
conta de um tema gigante em um país com tantas realidades? Partimos do
Estatuto da Juventude, um marco da nossa história recente, e cada
consultor pegou 3 ou 4 temas para dissertar, pesquisar e comparar com o
que vimos in loco. Mas é claro que cada um tinha um ponto de vista e
modo de escrever. A Maleta está com um jeito único, são vários olhares.
Isso foi bacana, porque mantivemos a diversidade.”
O Estatuto da Juventude, aprovado em 2013, faz com que os direitos já
previstos em lei, como educação, trabalho, saúde e cultura, sejam
aprofundados para atender às necessidades específicas dos jovens,
respeitando trajetórias e diversidade. E a Maleta tem como
objetivo implementar uma cultura de direitos e fazer com que esse
estatuto seja conhecido, discutido e se faça valer.
“O que a gente espera da Maleta é que ela chegue em lugares que nós
não estaremos e que ela dialogue com a realidade desses lugares. Tem
muita coisa que a gente não conseguiu chegar. A ideia é que a maleta
assuma e consiga criar discussões onde nós não estamos”, explica
Marcelo.