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domingo, 18 de fevereiro de 2018

Tratando-se de Eduardo Cunha, difícil prever qual será o fim da história.




A partir de 2013, o governo Dilma Rousseff sofreu uma série de reveses que levaram a presidente, antes com a popularidade nas alturas, a obter uma vitória apertada na disputa pela reeleição e, em seguida, à pior crise no Planalto desde o governo Fernando Collor.

Embora sejam vários os fatores que colocaram a petista na complicada posição atual – prestes a possivelmente ser afastada para sofrer um processo de impeachment –, teve imenso peso a oposição ferrenha feita pelo deputado Eduardo Cunha, parlamentar do maior aliado do governo até então, o PMDB.
Principal artífice do atual processo de impeachment, antes mesmo de assumir a presidência da Câmara, em fevereiro de 2015, Cunha já era visto como um aliado, digamos, não tão aliado assim. O histórico, amplamente divulgado pela imprensa, não mente: o deputado foi o pivô das piores insurgências da base aliada no momento em que Dilma teoricamente ainda tinha maioria no Congresso.

Alçado ao comando da Casa, Cunha se tornou um dos políticos mais poderosos do país em seu terceiro mandato como deputado federal. E, diante de seu notório conhecimento do regulamento interno da Câmara, imprimiu um ritmo poucas vezes visto de votação, ao mesmo tempo em que fez uso de todo o seu poder de escolher o que colocar na pauta, e o que deixar “na gaveta”.
Em entrevista à BBC nesta quarta, antes de o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, decidir pelo afastamento do parlamentar não só da presidência da Câmara como do mandato de parlamentar, Dilma o acusou de usar esse poder para impedir “o país de aprovar as reformas necessárias para sair da crise”.
Além disso, criticou ainda o que chamou de “espécie de complacência” da sociedade brasileira com o peemedebista: “O responsável pela aceitação e colocação do processo de impedimento que me atinge é uma pessoa denunciada pública e notoriamente, com contas no exterior, com acusações de lavagem de dinheiro das mais variadas. E ele tem acusações há mais tempo que o meu processo de impeachment”, disse a presidente.

Em seguida, acrescentou que o processo de impeachment foi “detonado” por Cunha após o PT decidir, em dezembro passado, votar contra ele no Conselho de Ética da Câmara, que analisa um pedido de cassação contra o parlamentar.
(Foto: Ag. Brasil)Direito de imagemAG. BRASIL
Image captionCunha acolheu pedido de impeachment contra Dilma
Essa crise, porém, não nasceu em 2015. Seu início, ao menos público, remonta, não coincidentemente, a 2013, ano em que tudo começou a dar errado para Dilma. Relembre os principais momentos:

Insurgência e concessões

Líder do PMDB na Câmara, Cunha foi o principal opositor, em 2013, à medida provisória que redefiniu as regras para o setor portuário. Acusado de atender a interesses empresariais, ele queria mudanças no texto, como permitir a renovação de concessões em portos públicos assinadas após 1993.
O tema consumiu longas e tensas sessões no Congresso. Para aprovar a MP, o governo teve, em parte, de ceder às reivindicações da rebelião na base aliada liderada pelo deputado.

O caso, porém, não parou aí: Dilma vetou alguns dos pontos incluídos na Câmara, provocando a fúria de Cunha. Ele saiu do episódio criticando duramente a articulação do governo na casa.
(Foto: Luis Macedo: Ag. Câmara)Direito de imagemLUIS MACEDO L AG. CAMARA
Image captionParlamentar começou a ter destaque nacional ao enfrentar o governo na votação da MP dos Portos

Motim na base

Após a barulhenta experiência ocorrida na MP dos Portos, Cunha organizou em pleno 2014, ano de disputa presidencial, um bloco com parlamentares de partidos aliados e da oposição que passou a atuar contra propostas defendidas pelo Planalto.
Para aprovar algumas delas, o governo teve de fazer concessões tanto nos textos em si como ao liberar verbas para emendas dos congressistas no Orçamento.
Não foram poucos os bate-bocas, pela imprensa, entre Cunha e petistas. O deputado chegou a defender publicamente que o PMDB rompesse com o partido da presidente.

A corrida pela Câmara

Devido ao protagonismo alcançado nos anos anteriores, era claro entre os deputados o favoritismo de Cunha para assumir a presidência da Câmara em 2015 – também contou o fato de ele ser visto como um defensor de iniciativas pró-parlamentares.


(Foto: Rodolfo Stuckert/Ag. Câmara)Direito de imagemRODOLFO STUCKERT L AG. CAMARA
Image captionDeputado venceu queda de braço com o PT e provou sua força ao se eleger presidente da Câmara
Sentindo as dores de cabeça que vinham por aí, o governo partiu para uma arriscada tentativa de evitar sua vitória. Surgiram relatos de que ministros usaram a negociação de cargos para pressionar deputados aliados a votarem no petista Arlindo Chinaglia (PT-SP) para mesma cadeira.
Além de piorar ainda mais a relação entre governo e Cunha, a estratégia não deu certo: o peemedebista foi escolhido com folga.

Com o poder nas mãos

Não foram poucas as derrotas sofridas pelo governo na Câmara sob o comando de Cunha. O peemedebista levou ao plenário, por exemplo, a PEC da Bengala, na gaveta desde 2005, que permite à cúpula do Judiciário se aposentar aos 75 anos, e não aos 70.
Aprovado, o texto retirou de Dilma a certeza de que indicaria ao menos mais cinco ministros do STF durante seu segundo mandato.
(Foto: Ag. Brasil)Direito de imagemAG. BRASIL
Image captionRompimento com Dilma, para muitos, foi apenas protocolar: Cunha já atuava como opositor
E vieram mais derrotas. Contra o governo, Cunha conseguiu a aprovação, por exemplo, de uma proposta de redução da maioridade penal, por exemplo.

Enquanto as investigações da Operação Lava Jato o implicavam cada vez mais, ele rompeu oficialmente com o governo, em julho. No início do mês, autoridades da Suíça afirmaram ter bloqueado US$ 5 milhões em contas do deputado e seus familiares no país, alimentando mais pedidos por sua saída.
Sua estratégia foi partir para o ataque: o parlamentar afirmou ser alvo de perseguição do governo por meio do procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
Ele sempre negou ser titular das contas no exterior, algo que chegou a dizer inclusive à CPI da Petrobras. Para partidos como PSOL e a Rede, Cunha mentiu à comissão e Cunha deve perder o mandato por isso – o que ele também refuta ao sustentar ser apenas ser o beneficiário de um trust (entidade criada para administrar bens de terceiros).
O processo segue até hoje em lenta tramitação no Conselho de Ética da Câmara. Ele e seus muitos aliados na Casa, e no próprio colegiado, têm lançado mão de uma série de medidas protelatórias, inclusive com tentativas de anular a tramitação.
(Foto: Getty)Direito de imagemGETTY
Image captionCunha é um dos principais acusados no escândalo de corrupção na Petrobras

Dono de suspense – e do martelo

Nos meses seguintes, enquanto as investigações da Lava Jato avançavam ainda mais contra Cunha e se aproximavam do Palácio do Planalto, o deputado adotou um clima de suspense em torno de aceitar ou não um pedido de impeachment contra Dilma Rousseff.
Segundo o noticiário político, nos bastidores ele cortejava o governo e a oposição com o objetivo de tentar preservar seu mandato. Publicamente, fazia várias críticas à gestão federal e acumulava encontros com representantes de movimentos favoráveis ao afastamento da petista.
Tudo isso durou até dezembro, quando os protestos que pediam a saída de Dilma haviam arrefecido e o tema tinha, de certa forma, perdido destaque.
Foi então que, em meio à expectativa sobre o Conselho de Ética da Câmara aceitar ou não abrir um processo contra ele, Cunha convocou jornalistas para anunciar que havia aceito o pedido de impeachment apresentados pelos advogados Janaina Paschoal, Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr.
O deputado sempre negou ter agido por vingança, mas aliados da presidente, e mesmo ela própria, afirmam que ele tomou a medida porque o PT havia decidido votar contra ele no colegiado – o que de fato acabou ocorrendo.
Essa é, aliás, uma das linhas de defesa de Dilma: a de que houve “desvio de finalidade” por parte de Cunha ao usar seu cargo para se “vingar” do governo.

A cara do impeachment na Câmara

Desde o início, Cunha deixou claro o lado em que estava no processo de impeachment.
O processo foi paralisado pelo STF, após pedidos de parlamentares governistas, ele tomar uma série de medidas que desfavoreceriam Dilma, como a eleição de uma chapa avulsa, sem o aval dos líderes de cada partido, para a Comissão Especial que analisaria o pedido de afastamento na Casa.
Quando a corte deliberou sobre as questões contestadas, Cunha entrou com recursos que fizeram com que a tramitação ficasse paralisada até março.
O que se viu em seguida foi um processo célere. O deputado, com certa antecipação, marcou a sessão em que os deputados decidiriam por autorizar o processo contra a presidente para um domingo, aumentando sua visibilidade.
Em seu voto na sessão, na qual Dilma foi derrotada por 367 a 137 votos (eram necessários 342 para o impeachment avançar), o peemedebista disparou: “Que Deus tenha misericórdia desta Nação, voto sim”.

Saída (pelo menos até o momento) da presidência da Câmara

Apenas os aliados mais próximos de Cunha defendiam sua permanência na presidência da Câmara. Entre governo e oposição, e vários setores da sociedade, o sentimento era de que ele não tinha mais condições de comandar a Casa.
Seguidas pesquisas Datafolha mostraram que cerca de 80% dos brasileiros defendiam sua cassação.
O deputado, porém, sempre refutou a ideia de renunciar à cadeira. O STF, por exemplo, deveria analisar se ele, réu da Lava Jato, poderia assumir a Presidência da República na ausência de Michel Temer, que deve substituir interinamente Dilma já na semana que vem.
Caso Temer assuma, o presidente da Câmara se torna o segundo na linha sucessória do país.
A decisão de Teori será levada a plenário no STF. Ela se baseia em um pedido da Procuradoria-Geral da República, para quem o deputado usa o cargo para atrapalhar investigações contra si.
Tratando-se de Eduardo Cunha, difícil prever qual será o fim da história.

Do auge ao processo de cassação: a trajetória de poder de Cunha em 5 capítulos


Do auge ao processo de cassação: a trajetória de poder de Cunha em 5 capítulos



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Três anos atrás, Eduardo Consentino da Cunha era praticamente um anônimo para o grande público, mas um velho conhecido da gestão Dilma Rousseff e das entranhas da política brasileira.
Personagem cuja trajetória remonta à campanha de Fernando Collor de Mello, em 1989, e ao governo de Anthony Garotinho no Rio de Janeiro no fim da década de 1990, o deputado estava apenas em seu terceiro mandato em 2013, ano em que protestos ocorridos em todo o país derrubaram a avaliação da maioria dos governantes ─ incluindo a de Dilma, à época surfando em uma onda de popularidade.
Enquanto a maioria dos políticos analisava como responder ao clima de insatisfação generalizado no país, Cunha iniciava ali, ao menos de forma mais explícita, seu caminho para se tornar um dos políticos mais poderosos do país.
Certamente não imaginava, porém, que toda essa visibilidade levaria à renúncia, às lágrimas, da presidência de uma Casa que até pouco tempo atrás todos diziam estar sob seu completo domínio.
"Resolvi ceder aos apelos generalizados dos meus apoiadores, diante da interinidade bizarra da Casa. Somente minha renúncia pode pôr fim a isso", disse Cunha ao renunciar ao comando da Câmara em julho.
Nesta segunda-feira, contudo, seu futuro político será decidido por seus colegas de plenário. Eles vão julgar se Cunha deve ser cassado.
Uma eventual perda do mandato configuraria, assim, se não o fim, um hiato importante na trajetória de um dos personagens mais controversos na história política recente do país.
Em entrevista á Folha de S. Paulo, o deputado alega que sua cassação reforçaria a tese de que o impeachment de Dilma Rousseff foi um "golpe".
"Os defensores do PT querem a minha cabeça para ter o troféu. O discurso do golpe precisa da minha cassação. Isso é o que vai turbinar o PT para 2018", afirma.
A BBC Brasil preparou uma lista dos principais momentos na carreira de Eduardo Cunha:
Michel Temer e Eduardo Cunha na Câmara, em 2015Direito de imagemAG. BRASIL
Image captionMichel Temer sempre evitou tecer críticas a Eduardo Cunha

1) Ascensão

Ao assumir a liderança do PMDB, em fevereiro de 2013, Cunha foi responsável por uma guinada no então tranquilo relacionamento entre o governo Dilma e a base aliada na Câmara.
O ponto alto da tensão foi evidenciado na discussão da MP dos Portos, em maio do mesmo ano, medida provisória que definiu novas regras para o setor portuário.
Acusado de atuar a favor das empresas do setor, Cunha liderou uma rebelião contra o governo, que acabou obrigado a fazer concessões para conseguir a provar a proposta - que, assim, demandou longas e tensas sessões no Congresso.
No fim, o processo expôs a primeira cisão pública entre ele e a presidente: o deputado a acusou de descumprir acordos ao vetar alguns pontos da MP.
A partir de então, o peemedebista articulou um bloco de parlamentares insatisfeitos de vários partidos da base aliada e da oposição. E, em 2014, começou a defender abertamente que o PMDB rompesse com o PT.
O "blocão" dificultou a vida do governo na Câmara, e como seu principal representante, Cunha foi alçado ao noticiário e paulatinamente se fortaleceu entre as grandes forças políticas.
Eduardo Cunha quando foi eleito presidente da Câmara, em fevereiro de 2015Direito de imagemAG. BRASIL
Image captionDeputado se transformou em porta-voz dos aliados descontentes com o governo

2) Poder

A Operação Lava Jato era uma grande nuvem negra se aproximando da classe política brasileira ─ e os boatos já davam conta de que o peemedebista tinha sido seriamente implicado nas investigações.
Mas embalado pelo status de opositor ─ ainda que não oficial ─ do governo e por uma fácil reeleição nas eleições de 2014, Cunha venceu facilmente a disputa para comandar a Casa em fevereiro de 2015, mesmo sob forte oposição do PT, que tentou emplacar Arlindo Chinaglia no posto.
A aposta da gestão de Dilma Rousseff na tentativa frustrada de impedi-lo de assumir o cargo apontava um temor que depois provou fazer sentido.
Como presidente da Câmara, ele tomou em suas mãos o controle da pauta da Casa e aplicou várias derrotas à gestão petista - em algumas das vezes, seu amplo e célebre conhecimento das regras do Legislativo permitiram que recolocasse em votação parte das poucas propostas em que havia perdido, provocando críticas de seus opositores.
À época, o peemedebista também recebia elogios pelo ritmo intenso de votações que imprimiu. O ano de 2015 se tornou o recordista no número de propostas votadas na Câmara desde 1991.
Sua força se manteve mesmo quando as investigações da Lava Jato já o encurralavam: Cunha rompeu oficialmente com o governo e começou a cortejar publicamente os movimentos pró-impeachment, mas, segundo os bastidores políticos, negociava com os dois lados uma estratégia para sua salvação.
A moeda de troca: aceitar ou não um pedido de impeachment de Dilma, suspense que durou quase todo o segundo semestre do ano passado e teve o desfecho que conhecemos: a petista foi afastada temporariamente do cargo em maio e, no mês passado, perdeu o mandato após votação no Senado.
Manifestante joga dólares falsos em Eduardo Cunha durante entrevista coletivaDireito de imagemAG. BRASIL
Image captionCom avanço da Lava Jato, peemedebista virou alvo frequente de protestos

3) Declínio

Embora provasse frequentemente sua força, Cunha começou a sofrer seguidos desgastes públicos.
Aos poucos, delatores da Lava Jato foram o implicando cada vez mais no escândalo de corrupção da Petrobras.
Sua situação piorou quando o Ministério Público da Suíça informou seus pares brasileiros sobre milhões depositados no país europeu, atribuídos ao deputado.
O problema é que ele havia negado, em depoimento à CPI da Petrobras, possuir contas bancárias no exterior. Diante disso, PSOL e Rede entraram com um pedido de cassação no Conselho de Ética da Câmara, argumentando que ele havia quebrado o decoro parlamentar ao mentir para seus colegas.
Cunha até hoje sustenta que não mentiu ─ diz que os valores eram geridos por trusts (fundações que administram recursos de terceiros) e, logo, que ele é apenas um beneficiário.
O processo interno contra ele, porém, acabou caminhando, mesmo que a passos lentos. E as apurações da Lava Jato avançaram de tal modo que ele acabou se tornando réu do caso no STF - já são duas ações, e podem vir mais por aí.
Eduardo Cunha comanda sessão em que Câmara deu aval ao início de um processo de impeachment contra Dilma, em 17 de abril de 2016Direito de imagemAG. CÂMARA
Image captionProcesso de impeachment virou tábua de salvação - mas só por um tempo

4) Resistência e aceitação do pedido de impeachment

A queda de Cunha era defendida por muitos há meses ─ e não eram poucos os que acreditaram, em vários momentos, que ela estava próxima.
Mas a verdade é que o peemedebista se provou resistente ─ contando para isso com a ajuda de uma verdadeira tropa de choque de deputados aliados agindo em sua defesa.
Por meio de manobras regimentais, esse grupo fez o processo no Conselho de Ética voltar ao ponto zero quando já se encaminhava para uma conclusão. Como resultado, a análise de seu caso se tornou a mais longa do colegiado: foram oito meses de exaustivas discussões, recursos e tentativas de anular a ação.
As composições no conselho, aliás, são apontadas como estopim do início do impeachment, em dezembro de 2015: Cunha acolheu o pedido de afastamento de Dilma na mesma semana em que o PT anunciou que votaria contra ele.
Ao dar início ao processo, ele ganhou mais tempo no poder: na oposição, era forte o sentimento de que o peemedebista teria papel fundamental na condução dos trâmites na Casa, o que de fato ocorreu.
Pelas mãos de Cunha, a escolha da comissão que analisaria o caso teve uma reviravolta - no lugar de uma composição pró-governo, ele articulou a eleição de uma chapa avulsa.
Além disso, o deputado imprimiu velocidade ao processo e manejou o calendário para que a votação pelo plenário ocorresse no dia 17 de abril, um domingo, atraindo as atenções de todo o país.
Eduardo Cunha após entrevista coletiva na Câmara em abril de 2016Direito de imagemAG. BRASIL
Image captionVotação no Conselho de Ética selou destino do mandato de Cunha

5) Queda

A partir do dia 17 de abril, o impeachment virou assunto do Senado, levando o mundo político a questionar qual seria o papel de Cunha daí em diante.
A resposta não levou muito tempo: cerca de duas semanas depois, ele acabou afastado da presidência da Casa e do mandato pelo STF.
O ministro Teori Zavascki, responsável pela Lava Jato no STF, atendendo a pedido do procurador-geral da República Rodrigo Janot, entendeu que ele usava sua posição para constranger pares e atrapalhar investigações contra si. A decisão acabou ratificada, por unanimidade, pela corte.
Um mês depois, o juiz Sergio Moro tornou a mulher de Cunha, Cláudia Cruz, ré em um processo, acusando-a de ser favorecida pelos valores depositados na Suíça.
E as notícias negativas não pararam por aí: depois de oito meses de manobras, o Conselho de Ética da Câmara finalmente votou o parecer recomendando sua cassação.
A verdade é que o argumento do trust não surtiu efeito: com base em assinaturas suas e em comprovantes de pagamentos de despesas sua família, o conselho aprovou no mês passado parecer recomendando sua cassação - foram 11 votos a 9, quando as apostas eram de um empate ou vitória dele.
Com isso, suas opções de manobras praticamente se exauriram: restou apresentar um recurso à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) pedindo a anulação do processo sob o argumento de cerceamento de defesa.
O relator do pedido, o deputado Ronaldo Fonseca (Pros-DF), emitiu parecer defendendo que a votação pelo Conselho de Ética fosse anulada. Mas, em votação simbólica, a CCJ o rejeitou.
Nesse meio tempo, Cunha anunciou sua renúncia em julho deste ano, abrindo espaço para sua sucessão no comando da Casa.
Nesta segunda-feira, o plenário deve decidir sobre sua cassação. Serão necessários 257 votos, a maioria simples da Casa, para que ele perca seu mandato.
Restará ainda saber qual papel ele assumirá, a depender da evolução dos processos dos quais é alvo na Lava Jato. Uma das dúvidas é se ele continuará aliado do presidente Michel Temer, ou se representará uma ameaça a seu governo.

Nise da Silveira: a mulher que revolucionou o tratamento mental por meio da arte E DA INCLUSÃO...

Nise da Silveira ficou conhecida por seu trabalho como psicoterapeuta e na Luta Antimanicomial / Centro Cultural da Saúde/Ministério da Saúde...


Nise da Silveira ficou conhecida por seu trabalho como psicoterapeuta e na Luta Antimanicomial   - Créditos: Centro Cultural da Saúde/Ministério da Saúde


Nise da Silveira: a mulher que revolucionou o tratamento mental por meio da arte E DA INCLUSÃO.....

Com terapia ocupacional, psiquiatra alagoana enxergou potencial de pacientes com estigma da loucura

Brasil de Fato | São Paulo

Já dizia Machado de Assis que “De médico e louco todo mundo tem um pouco”. O ditado ficou famoso pelo livro O Alienista, de 1882, que faz um debate sobre a loucura. Uma frase parecida é da nordestina Nise da Silveira, grande admiradora do autor brasileiro: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas.”
Nise Magalhães da Silveira nasceu em 1905 e ajudou a escrever e revolucionar a história da psiquiatria no Brasil e no mundo. Nascida em Maceió, Alagoas, ela ficou conhecida por humanizar o tratamento psiquiátrico e era contrária às formas agressivas usadas em sua época, como o eletrochoque.
De uma inteligência rara e inquietação gigantesca, Nise também inspirou quem conviveu com ela, como é o caso de Gonzaga Leal, artista e terapeuta ocupacional. Ele foi amigo pessoal da alagoana e afirma que "estar junto dela era objeto de amor". "A Nise, para mim, é uma grande inspiração. Ela era uma mulher de uma cultura muito superior e de uma curiosidade absurda; uma mulher que, como ela dizia, era um Lampião, no melhor sentido da coragem, de ser destemida e, além de tudo, uma nordestina; uma mulher que andava de braços colados com o seu desejo."
Gonzaga Leal e Nise da Silveira/Arquivo Pessoal Gonzaga Leal
Inspirada em Carl Jung, um dos pais da psiquiatria, Nise foi uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no Brasil. Em meados de 1940, ela foi pioneira na terapia ocupacional, método que utiliza atividades recreativas no tratamento de distúrbios psíquicos. A alagoana se destacou por usar a arte como uma forma de expressão e de dar voz aos conflitos internos vivenciados principalmente pelos esquizofrênicos, que tiveram suas obras expostas ao redor do mundo.
A revolucionária frequentava grupos marxistas e ficou presa por dois anos acusada de envolvimento com o comunismo. Afastada da psiquiatria, ela continuou seus estudos enquanto estava no presídio Frei Caneca. Para Mariana Sgarioni, jornalista e pesquisadora, Nise da Silveira continua atual por ter quebrado paradigmas muito à frente de seu tempo. "O legado dela como mulher, estudiosa e médica, a gente colhe até hoje. Exemplo disso é o Movimento Antimanicomial, que começou com ela. Nise era incômoda, isso incomodava muita gente, por isso que ela acaba presa e, logo depois da prisão, ela ficou meio escondida e viveu na clandestinidade durante muito tempo."
De Nise da Silveira, muitos movimentos, exposições, filmes e ocupações surgiram na resistência contra os manicômios. Um deles é a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (Renila), que luta contra o aprisionamento e exclusão dos chamados loucos, como destaca Beatriz Viana, integrante da organização. "A Renila está com uma lema levantando a bandeira de que a democracia é antimanicomial. Não existe um modelo antimanicomial em uma situação que não seja a democrática. A luta é não só pela desconstrução dos manicômios com muros, mas da cultura manicomial, para romper o estigma que o louco tem na sociedade."
Em 1956, Nise fundou a Casa das Palmeiras, um passo na direção da luta contra os hospícios, que chegaria a seu ápice com a Lei Antimanicomial, de 2001. Do esforço da psiquiatra e de seus pacientes foi criado o Museu do Inconsciente, aberto até hoje no Rio de Janeiro junto ao Instituto Municipal Nise da Silveira, atual nome do Centro Psiquiátrico de Engenho de Dentro, onde a médica construiu seu projeto.
Obra de Adelina Gomes, uma das pacientes de Nise da Silveira/Acervo Museu de Imagens do Inconsciente
Gonzaga Leal conta que Nise era muito ligada ao sagrado e tinha consciência plena da finitude do ser humano. Ele lembra que a amiga queria passar os últimos dias de vida em um mosteiro. "Por ela ser uma defensora dos animais e um amor profundo pelos gatos, ela dizia sempre que queria morrer como um gato, que se recolhe e morre sozinho."
Em 15 de fevereiro deste ano, Nise completaria 113 anos, mas a sua luta reflete os avanços que a psiquiatria já alcançou e o caminho que ainda precisa trilhar. Nise da Silveira é mais do que atual, é sinônimo de resistência atemporal e expansão do pensamento, como destaca o amigo. "A Nise é uma das grandes brasileiras, ela continua vivíssima e acho que temos muitas provas da existência dela."
Para conhecer um pouco mais sobre a psiquiatra alagoana, assista ao filme Nise - O coração da Loucura, lançado em 2016 e dirigido por Roberto Berliner. Confira o trailer:

Edição: Anelize Moreira

CARNAVAL NA TVT - DESFILE DAS CAMPEÃS

sábado, 17 de fevereiro de 2018

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