Valores civilizatórios
afro-brasileiros e Educação Infantil:
uma contribuição afro-brasileira
Azoilda Loretto da Trindade
Ao começar a pensar em escrever este texto, algumas frases e imagens se
fizeram presentes em minha memória. A mais marcante, inicialmente, foi
a do cenário de reunião pedagógica, e a lembrança de vozes de colegas
docentes, em diversos momentos: “Eles não têm valores!”. (referindo-se
aos estudantes), “Eles não têm hábitos, nem atitudes!”.
Parece que, quando a gente pega o fio da memória, uma imagem puxa a
outra. Comecei a me lembrar de outras cenas que me marcaram como
docente, num movimento pendular entre as positivas e as negativas, entre
o ontem e o hoje, num tensionado movimento dicotômico. Lembrei-me:
- de um cenário no qual meninas negras se desenhavam louras de
olhos claros, verdes ou azuis.
- da pesquisa dos psicólogos Kenneth e Mamie Clark1
, de 1947,
realizada nos Estados Unidos, com o intuito de investigar como as
crianças negras se percebiam.
- do recente “documentário”, possivelmente inspirado na pesquisa
dos Clark, que circula na internet, sobre crianças que atribuíam
qualidades negativas às bonecas negras e positivas às brancas2
.
- das meninas e meninos não negros, e às vezes até negros, que
se recusam a dar a mão aos/às coleguinhas de pele escura, ou se
recusam a formar pares nas danças e festinhas.
- do garotinho mestre-sala de uma escola de samba mirim que
caiu na passarela, durante uma evolução, mas fez da queda um
passo e seguiu glamouroso, sob os aplausos das pessoas que
assistiam ao desfile.
1 Ver em: http://www.flickr.com/photos/22067139@N05/2405124754/, acessado em 11/11/2010. All
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2 Pesquisa disponível na internet: http://www.youtube.com/watch?v=DDO3RrxmCeQ, em 11/11/2010.
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- de uma diretora-adjunta, mulher negra e jovem que, para
castigar uma menina que foi enviada à direção porque chamou a
professora de nojenta, determinou que ela escrevesse 50 vezes,
“devo sempre chamar minha querida professora de linda”.
- de um grupo de crianças de idade entre três a quatro anos e,
especificamente, de três crianças que faziam parte dele. Uma
delas se machucou, chorou, mas não havia nenhum adulto por
perto para consolá-la. Imediatamente, duas menininhas foram em
seu auxílio, acalentando-a com carinho e palavras: “Não chore!
Não chore!”.
- uma profusão de situações, de imagens de crianças que nos
assombram, como a clássica fotografia de Kevin Carter que mostra
uma criança e um abutre à sua espreita3
; e que nos acalmam,
como durante uma eleição para escolha do nome de uma turma
de alfabetização, com 17 meninos e nove meninas. Em votação, os
nomes Castelinho dos Terrores e Turma do Amor. Vendo meu dilema,
e quase desespero, uma criança de seis/sete anos me disse: “Tia4, o
Amor sempre vence no final”.
Em meio a este turbilhão de imagens, uma sensação me toma: a
consciência do imenso amor que me nutre, o amor por todas as crianças,
futuro da humanidade, e em especial por aquelas que têm — por motivos
perversamente humanos como o racismo, o machismo, a ambição, a
ganância, o egoísmo, a insensibilidade — seu direito à infância roubado,
sua imagem de criança invisibilizada, a história do seu povo, dos seus
ancestrais submergida, negada ou subalternizada.
Neste movimento pendular, na linha tênue que separa a vida da morte, a
alegria da tristeza, faço minha opção pelos vivos, sem deixar de memorar
os mortos. VIDA, VIDA, VIDA... Como promover a Educação pela VIDA e
para a VIDA, na qual a exclusão, a subalternização e a desumanização do
Outro não sejam possíveis?
Fazendo a ligação entre o ouvido, sentido, visto e vivido, entre “eles não
têm valores”, a potência de vida de um povo marcado pelo racismo, e a
frase da criança, “o amor sempre vence no final”, resolvemos revolver
memórias, refazer leituras e “ouviduras” de palavras, de histórias, de
3 Foto disponível na internet: http://pt.wikipedia.org/wiki/Kevin_Carter
4 Sim, embora esta situação tenha ocorrido há mais de 15 anos, as crianças ainda chamam as professoras
de tia em muitos lugares deste país.
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sons e de silêncios, juntar fragmentos e nos reencontrar com as palavras
polissêmicas e polifônicas: valores, talvez, fundamentos morais, éticos e
comportamentais que nos são significativos e importantes; civilização,
talvez, conjunto de produções materiais e imateriais de uma sociedade.
No nosso caso, não significa a higienização do humano, nem seu
apartamento da natureza, nem uma evolução; afro-brasilidade, talvez,
maneiras, possibilidades de matrizes africanas ressignificadas pelo modo
de ser dos brasileiros/as.
Aproximamo-nos, assim, de imagens d’África de ontem e de hoje, de
imagens de suas filhas e seus filhos, de sua descendência, espalhadas
pelo planeta Terra; da compreensão de que é impossível negar a riqueza
do Patrimônio Africano, afrodiaspórico e afro-brasileiro: ARTE, CIÊNCIA,
TECNOLOGIA, FILOSOFIA, PSICOLOGIA, MATEMÁTICA, LINGUAGENS,
ESCRITA, ARQUITETURA... O patrimônio africano está visceralmente
imbricado no DNA da humanidade.
Numa leitura feita do ponto de vista da “casa grande”, querem nos
confinar nos tumbeiros, na senzala, no pelourinho ou na cozinha. Aqui,
contudo, vale a ressalva de que a cozinha é o coração da casa, o local
do preparo, conservação e cuidado do alimento; o problema não está
na maravilhosa cozinha, mas em nos aprisionarmos a ela. Tentam nos
invisibilizar, subalternizar, subtrair ou hierarquizar nossa condição humana,
naturalizando as críticas condições de desigualdades sociais e étnicas.
Em vez de nos deixar paralisar pelas concepções que nos despotencializam,
redescobrimos os Valores Civilizatórios Afro-brasileiros.
Temos valores marcados por uma diversidade, somos descendentes
de organizações humanas em processo constante de civilização — digo
processo, e não evolução. Como afro-brasileiras e afro-brasileiros ciosas/
os e orgulhosas/os desta condição, em diálogo com valores humanos de
várias etnias e grupos sociais, imprimimos valores civilizatórios de matriz
africana à nossa brasilidade que é plural.
Num processo civilizatório que prioriza o lucro, a dominação e a sujeição
do outro, a subtração de sua energia vital (mais-valia), a competição, a
racionalidade, a apartação ser humano-natureza, a maquinização e a
tecnocracia, é preciso enfatizar outros valores e processos civilizatórios
afro-brasileiros, e que também se fazem presentes.
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Reconhecemos a importância do Axé,
da ENERGIA VITAL, da potência de vida
presente em cada ser vivo, para que,
num movimento de CIRCULARIDADE,
esta energia circule, se renove, se
mova, se expanda, transcenda e não
hierarquize as diferenças reconhecidas na
CORPOREIDADE do visível e do invisível. A
energia vital é circular e se materializa nos
corpos, não só nos humanos, mas nos seres
vivos em geral, nos reinos animal, vegetal e
mineral. “Na Natureza nada se cria, tudo se
transforma”, “Tudo muda o tempo todo no
mundo”, “... essa metamorfose ambulante”.
Se estamos em constante devir, vir a ser, é
fundamental a preservação da MEMÓRIA
e o respeito a quem veio antes, a quem
sobreviveu. É importante o respeito à
ANCESTRALIDADE, também presente no
mundo de territórios diversos (TERRITORIALIDADE). Territórios sagrados
(RELIGIOSIDADE) porque lugares de memória, memória ancestral,
memórias a serem preservadas como relíquias, memórias comuns,
coletivas, tecidas e compartilhadas por processos de COOPERAÇÃO e
COMUNITARISMO, por ORALIDADES, pela palavra, pelos corpos diversos,
singulares e plurais (CORPOREIDADES), pela música (MUSICALIDADE)
e, sobretudo, por que não, pelo prazer de viver — LUDICIDADE.
Ao redescobrirmos os valores civilizatórios afro-brasileiros, podemos
compreender que vivemos embates terríveis, sociais e históricos,
determinados pelo racismo; perceber que não estamos condenados a um
mundo euro-norte-centrado, a um mundo masculino, branco, burguês,
monoteísta, heterossexual, hierarquizado... Outros modos de ser, fazer,
brincar e interagir existem.
A diversidade e a multiplicidade existem em cada um/a de nós e nos
grupos que constituem a humanidade. Estes grupos são fundamentais
para a construção de uma nova humanidade, que o trabalho com a
EDUCAÇÃO INFANTIL, com os recém-chegados seres humanos de zero
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a seis anos, demanda, exige. Uma humanidade sem racismo, que preza
o respeito, a convivência e o diálogo. Em se tratando de uma educação
para o amanhã, tecida no hoje, com o legado do ontem, eu diria, UMA
HUMANIDADE DO AMOR.
REFERÊNCIAS: colegas docentes (palavras e ações), estudantes (palavras e
ações), leituras de mundos, reflexões com ativistas sociais, leituras de palavras
(Paulo Freire, bell hooks, Regina Leite Garcia, Petronilha Gonçalves, Muniz Sodré,
Amauri Mendes, Maria Batista Lima, Nilma Lino Gomes, Nilda Alves, Ines Barbosa,
Marcelo Paixão, Leda Martins, entre outros)
Azoilda Loretto da Trindade é educadora, doutora em Comunicação e Cultura e consultora
pedagógica do Projeto A Cor da Cultura.
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Energia Vital